A Rolling Stone brasileira traz uma entrevista de Keith Richards publicada em 1981. Vamos reproduzir o trecho que está no site da revista. O entrevistador foi Kurt Loder, que depois trabalhou na MTV. Valeu pelo aviso, Stonealone!

O Renascimento de Keith Richards
Por Kurt Loder

No final de 1981, o guitarrista dos Rolling Stones tinha como missão ajudar a colocar a sua banda novamente na estrada, na turnê que promovia o recém-lançado disco Tattoo You. Nesta entrevista, Richards fala francamente sobre seus eternos problemas com as drogas, o relacionamento com Mick Jagger e declara seu amor à nova companheira, a modelo Patti Hansen.
“Acabei de me juntar a Napoleão”, disse Keith Richards, levantando a taça de vinho em um brinde sarcástico. “Mick está doente. Gripe, acho.” Era exatamente uma semana antes do início da primeira turnê dos Rolling Stones em três anos, mas Richards parecia despreocupado em perder uma noite de ensaio crucial. Vestido como um adolescente rebelde, de jaqueta de aviador negra, camiseta preta e jeans preto, com botas de camurça azul amarrotadas nos tornozelos e uma echarpe verde-escura amarrada na cintura, ele parecia, no entanto, saudável e animado.
Estávamos em pé na enorme cozinha campestre do Long View Farm, um complexo de gravação longínquo, mas luxuoso, no interior de Massachusetts, onde os Stones estavam se preparando no último mês. Eram nove da noite e o bufê da cozinha estava repleto de carnes assadas, lagostas ao vapor e panelas cheias de legumes frescos e amanteigados. Na área de jantar, Charlie Watts filmava com sua câmera de vídeo portátil uma mesa de canto grande, à qual Bill Wyman e os dois tecladistas auxiliares, Ian Stewart e Ian McLagan, estavam sentados e olhando para os pratos. Percebo que as famosas cabeças estão ficando grisalhas, os rostos começam a cair como alforjes desgastados pelo tempo.
A futura turnê dos Stones seria a mais desafiadora de seus 19 anos de carreira. Uma lei para eles mesmos no passado, eles agora estavam incontestavelmente velhos e, assim, viram-se na posição de ter de sair mais uma vez e provar, em público, que ainda conseguiam fazer isso. Sua capacidade criativa não se discutia: Tattoo You, o novo LP, mostrou que todo o velho poder ainda existia, e as letras foram enriquecidas por uma nova complexidade emocional. O show do grupo é que precisava de uma arrumação.
Keith Richards estava determinado a fazer tudo ficar bem. Aos 37, marcado pelos anos loucos de prisões por drogas e manchetes de gritos no tribunal, começou a perceber uma ordem surgir em sua vida. Sua longa relação com Anita Pallenberg, mãe de seus dois filhos, Marlon e Dandelion, havia terminado de uma forma horrível e pública, mas seu romance atual com Patti Hansen, uma jovem modelo, ofereceu esperança de renovação. Mesmo na meia-idade, descobriu que o rock ainda fazia uma espécie de sentido perfeito e poderoso. Então, mais uma vez, reuniu os Stones à sua volta.
No celeiro, um palco brilhante de pinheiro polido tinha sido montado nos 30,5 m de largura do espaço. Poucos metros abaixo, havia uma pequena área de estar com uma lareira, um caro aparelho de som estéreo e uma mesa lateral repleta de bons vinhos e bebidas. Keith foi até o aparelho de som e colocou uma fita cassete, anunciando-a como “o melhor álbum do ano”. Era Fiyo on the Bayou, dos Neville Brothers, uma festa animada de R&B ao estilo de Nova Orleans. Keith se serve uma dose de Jack Daniel’s, eu pego uma garrafa de vinho e sentamos a uma mesa para admirar a performance incrível de Aaron Neville do velho clássico do doo-wop “The Ten Commandments of Love”. Será que os Stones conseguem ser bons em 1981? Tudo o que você tinha de fazer, segundo Keith, era incitá-los.
A julgar por Tattoo You, parece que a banda poderia continuar, criativamente, pelo menos, por mais 20 anos. Espero que sim.
Eu também, porque ninguém mais fez isso, sabe? É um tanto interessante descobrir como o rock pode crescer. Quer dizer, existem outros exemplos, obviamente, mas no tipo da escala em que os Rolling Stones estão, e têm estado há tanto tempo, ainda parece que se fizermos o nosso melhor, eles reagirão a isso imediatamente – o público, os garotos, o que você quiser chamar. Alguns deles não são mais tão jovens. Nem nós.
Os punks gostavam de ressaltar isso durante seus minutos de fama.
Eles são assim. Sempre vêm e vão.
** A íntegra está na Rolling Stone Brasil, edição 53.

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