Por Cristiano Radtke

Um novo livro sobre Brian Jones foi lançado recentemente na Inglaterra. Trata-se de Sympathy for the Devil: The Birth of the Rolling Stones and the Death of Brian Jones, escrito pelo inglês Paul Trynka, autor de Brian Jones: The Making of The Rolling Stones, cujo lançamento já foi noticiado pelo blog.

Para escrevê-lo, Trynka entrevistou mais de 130 pessoas, entre as quais se destacam Keith Richards, Marianne Faithfull e Andrew Oldham, e sua intenção com o livro é contar a história de Brian através de uma perspectiva diferente, que procura mostrar a competição interna que havia entre os Stones, explorando e evidenciando o papel de Brian junto à banda, bem como procurando fazer justiça à sua figura, como fica claro na entrevista que publicamos a seguir.  
Trynka é um jornalista conhecido na Inglaterra. Ele foi editor da revista Mojo entre 1996 e 2003, além de trabalhar em outras publicações inglesas e ser o autor de aclamadas biografias de Iggy Pop e David Bowie. Ao fazer a pesquisa para seu livro, Trynka teve acesso a uma informação curiosa, que foi noticiada pelo prestigiado jornal londrino The Sunday Times em sua edição do último dia 14, a qual menciona o artista americano Sid Maurer, que diz ser o verdadeiro autor do logotipo.
De acordo com a matéria, Sid teria criado o logotipo utilizando uma antiga fotografia sua de quando era bebê, e teria mostrado o trabalho a Brian, que se interessou por ele e o adquiriu por 1.500 dólares em 1967. Ainda de acordo com a matéria, Brian teria mostrado o trabalho a Jagger, que aparentemente não demonstrou interesse por ele. Passados mais de 40 anos, Sid reivindica para si a autoria do trabalho (que é atribuído a John Pasche), e espera que a banda pelo menos lhe agradeça publicamente. 
Esta história era até então era desconhecida por praticamente todos os fãs dos Stones, assim como a revelação que Trynka faz em seu livro e antecipa para Stones Planet Brazil: de acordo com ele, Brian (e não Ry Cooder) é quem teria apresentado a afinação em open G para Keith. Para falar sobre isso, sobre seu novo livro e sua intenção em reavaliar a figura de Brian Jones, fizemos a seguinte entrevista com Paul Trynka. 

Stones Planet Brazil – Hoje parece haver um aumento no interesse pela figura de Brian Jones. A que você atribui isso?
Paul Trynka – Por uma coisa: hoje todos nós conhecemos e amamos world music. Quem foi a primeira pessoa a mostrar isso? Brian Jones. E tão importante quanto isso é o fato de que Brian foi visionário em abrir o mundo para o R&B em geral. Ele foi a pessoa na Inglaterra que acreditou que o blues seria popular entre as pessoas jovens. Ninguém mais – incluindo, por exemplo, Alexis Korner, Mick Jagger e Keith Richards – pensava assim. Eles achavam que era uma música legal, mas que se tocava como um hobby.
SPB – Se não fosse por Brian, jamais haveriam os Stones, ou pelo menos não a banda que conhecemos hoje. Mick e Keith eram os compositores, mas Brian foi quem fez todo o esforço nos primeiros anos para a banda se tornar conhecida. Você acha que os Stones fariam sucesso sem ele?

PT – Não apenas não fariam como eles simplesmente jamais existiriam sem Brian.
SPB – Como foi para você conseguir as entrevistas que queria para o livro, e por quanto tempo durou a sua pesquisa? Houve alguém com quem tenha tentado conversar mas que não tenha conseguido por um motivo ou por outro ou que tenha se negado a dar entrevista?
PT – Conseguir as entrevistas é sempre a parte mais difícil de escrever um livro, mas também é a mais prazerosa. É isso que me faz acordar todas as manhãs, porque sou uma pessoa curiosa e sempre quero saber mais. Este livro mais ou menos me abriu os olhos para algumas situações, pois percebi que muitos fatos e entrevistas sobre os Stones eram simplesmente inventados. Acabei fazendo mais de 130 entrevistas, o que não apenas te dá muito mais fatos – você consegue perceber as coisas através das pessoas, por seu humor, etc. Cada pessoa que entrevisto tende a mudar minha maneira de pensar, então o livro poderia mudar muito ao longo desse processo. 
SPB – A morte de Brian tem sido esmiuçada em livros e entrevistas desde  1969. O que você pode nos dizer sobre isso?
PT – O veredito oficial tem muitos furos, mas certamente há muitos mais no cenário do assassinato, e um tende a contradizer o outro, e em muitos casos parece muito óbvio que as entrevistas são fabricadas. Além disso, meu livro ajuda a esclarecer a única versão viável do que aconteceu naquela noite, nos Olympic Studios. Acho que as teorias da conspiração a respeito da morte de Brian são uma distração, considerando a conspiração feita para demiti-lo, o que foi ultrajante e o que isso desencadeou em sua vida pessoal. Como Stash, que foi preso com ele diz, o sistema matou Brian. Lembre-se que sua primeira prisão foi feita por um policial que depois foi preso por perjúrio e por plantar evidências. 
SPB – Brian é hoje, de certa forma, um personagem misterioso entre os jovens fãs dos Stones, que não tiveram a chance de vê-lo ao vivo, com exceção dos vídeos que se tem por aí. Você acha que seu livro pode ajudar a reavaliar sua imagem?
PT – A proposta do livro é a de colocar Brian como uma figura central dos anos 60, não apenas como fundador dos Stones mas como um visionário. Ele colocou o blues e a world music no mapa. Sem ele, isso teria levado muito mais tempo, e todo o universo musical hoje poderia ser muito diferente. 
SPB – Na última edição do Sunday Times, há um artigo sobre o artista americano Sid Maurer, que diz ser o autor original do logo da banda. Você o entrevistou para o livro?
PT – Esse artigo surgiu a partir da pesquisa que fiz para o livro, mas não incluí essa história pois não pude incluí-la a tempo.
SPB – A respeito desse logotipo, é sabido entre os fãs dos Stones que outro artista, Ernie Cefalu, também alega ser o autor original. Maurer diz que conheceu Brian por volta de 1967, mas ele é raramente mencionado nos livros já escritos sobre a banda, e esta história só veio a público recentemente. Não te parece estranho que mais de 40 anos se tenham passado sem que se mencionasse Maurer como sendo um possível autor desse logo?
PT – Na verdade, Sid é bem conhecido no cenário musical, pois ele produziu capas para a Epic e para a CBS e era amigo de Andrew Oldham, que o menciona em seu livro, e certamente conheceu e se encontrou com as pessoas desse período, 1967, 1968. Sua história é plausível, mas não há provas. 
Pessoalmente, eu acredito que o fato da afinação de guitarra que Keith (e Mick) usam até hoje veio de Brian, e que eles não o creditarem por isso é muito significante – e está tudo registrado, nos discos dos Stones, nos quais Brian usa a afinação open G. Brian podia ser uma pessoa difícil, mas parece haver esforços concentrados para negar-lhe o crédito por isso. Essa é uma injustiça histórica que eu quero consertar. 
O livro de Paul Trynka não tem previsão de lançamento no Brasil, mas os interessados podem adquiri-lo pela Amazon inglesa ou americana.

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