Provavelmente os Rolling Stones foram os artistas mais perseguidos pelo establishment, não apenas inglês, mas mundial. Os caras foram colocados na cadeia, ameaçados de prisão perpétua, foram revistados e interrogados em centenas de aeroportos em todo canto. Os Stones foram impedidos de entrar em alguns países e foram considerados “personas non gratas” por uma infinidade de governantes. A insistência do novo presidente norte-americano Donald Trump em capitalizar com a imagem da maior banda do mundo vem de longa data, mas a prática tem sido comum já desde fins dos anos 1980. O mundo dá voltas.

Trump usou e abusou de tocar músicas dos Stones durante sua campanha presidencial. Start me Up, You Can´t Always Get What You Want, Brown Sugar e Sympathy For The Devil foram constantes em seus discursos e programas televisivos. Até mesmo no concerto de celebração “Make America Great Again”, que antecedeu a a sua posse, a música dos Stones esteve presente. Trump caminhou com a esposa Melania ao som de Heart of Stone, ignorando os pedidos da banda para que ele parasse de usar as canções. Keith Richards chegou a dizer que a eleição do bilionário seria “o pior dos pesadelos”.

Mas a história de Trump com os Stones começou em 1989, durante a Steel Wheels Tour. A banda teve a infeliz ideia de aceitar 6 milhões de dólares por três shows, dias 17, 19 e 20 de dezembro, no Convential Center, em Atlantic City. Não apenas a arena, mas o cassino ao lado é propriedade de Trump, que contratou os Stones como tipo de “bônus” para os seus clientes, todos casais da terceira idade, que não sabiam nada sobre os Stones. 

O show do dia 17, que teve os melhores lugares reservados para os “velhinhos de Trump”, foi um desastre. Deu tudo errado e milhares de pessoas, nenhuma delas fã dos Stones, foi embora antes de o show acabar. O concerto do dia 19 foi televisionado por PPV, inclusive para o Brasil, pela TV Bandeirantes. A apresentação foi fenomenal, com grandes participações de Eric Clapton, John Lee Hooker, Axle Roses e Izzy Stradlin.

Como pagou caro pelos shows, Trump pode dar as cartas e cobrou até 250 dólares por um ingresso, que usualmente, na época, custaria 30 dólares. Mick Jagger ficou furioso e proibiu qualquer aproximação do empresário dos Stones. Trump queria evidentemente tirar fotos com a banda, o que não foi aceito pelo grupo.  Em reposta, o dono de uma fortuna de mais de 3 bilhões de dólares disse que “os Stones são um bando de cretinos sem tamanho”, como Bill German conta em seu livro Under Their Thumb, que foi lançado no Brasil pela Nova Fronteira.

De certa forma, mesmo sem a concordância dos Stones, Trump encontrou forma de mais uma vez levar vantagem e faturar com a fama deles. Hoje em dia, os Stones são vistos como libertários, muito mais do que ameaçadores. Para um sujeito rabugento e comparado ao Tio Patinhas, beber um pouquinho do status dos Stones, na visão dele, certamente traz benefícios. 

Em 2003, os Stones tocaram em Praga, a convite de Václav Havel, líder da Revolução de Veludo, que derrubou o comunismo na Tchecoslováquia. Na mesma praça onde Havel discursou para mais de 200 mil pessoas,  os Stones tocaram para uma multidão, numa emocionante celebração da liberdade. “Os tanques rolam para fora e os Stones rolam para dentro”, dizia Havel. Vocês podem ver sobre isso no Four Flicks.

Governantes quererem papo com os Stones virou moda. Fã da banda Bill Clinton fez apresentação de dois shows dos Stones, se declarando fã de carteirinha. Clinton ficou amigo de Jagger e ambos foram vistos por ai algumas vezes. Barak Obama seguiu pelo mesmo caminho e até citou os Stones em seu discurso em Havana, pouco antes do show de Jagger e CIA em Cuba. Seja de que lado estiver o governante, hoje ele quer ter os Rolling Stones perto de si, mesmo que de forma não consentida, como Trump.

 

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