Por Cristiano Radtke

Não é de hoje que se sabe que a Argentina é o melhor lugar para se ver os Stones (e quaisquer outras bandas/artistas também): desde 1992, com o concerto solo de Keith, passando pelas tours Voodoo Lounge, Bridges to Babylon, A Bigger Bang e a atual, Olé Tour, os Stones são calorosamente recebidos no país vizinho como não se vê em qualquer outro lugar do mundo.
Por esse motivo, e aliado ao fato de nunca tê-los visto na Argentina, comprei passagem e ingresso para o show do dia 10 e cheguei em Buenos Aires, onde mal sabia que fortes emoções me esperavam, para além do show propriamente dito.
De início, tive a oportunidade de finalmente conhecer o já lendário 40×5 Tributo Bar, de propriedade do amigo Juan Ignácio, um dos grandes divulgadores da cultura Stone na América Latina, onde encontrei vários fãs de várias partes do mundo, todos em uma grande confraternização na noite anterior ao show do dia 10.
Photo credit: Javier Pepe
Embora pequeno, o bar tem uma atmosfera que o transforma em um gigante lugar onde os fãs se encontram para trocar informações, experiências e inclusive ingressos – vários fãs que haviam comprado ingressos para apenas um dos shows na Argentina se encontraram no bar para trocar ingressos com pessoas que tinham outros para diferentes dias. Em resumo, um local imperdível para se conhecer na capital argentina.
Depois de passar uma noite com novos e antigos amigos, era hora de me preparar para o dia seguinte, em que os Stones tocariam em La Plata e que jamais vai me sair da memória por todos os motivos possíveis e imagináveis.
No caminho para La Plata, no ônibus intermunicipal que nos levava, tivemos um momento de interrupção na viagem: viaturas e motocicletas da polícia argentina bloqueavam a estrada à frente, o que fez com que algumas pessoas dissessem se tratar de um acidente. Depois de dois ou três minutos de espera, começam a passar pelo acostamento outras viaturas e motocicletas que estavam escoltando nada menos do que 4 vans com vidros escurecidos – sim, os Stones passavam ao nosso lado naquele exato momento, por volta das 17h, indo para La Plata. Ao ver de quem se tratava, vários fãs que estavam no ônibus começam a se animar e a festa toma conta do ônibus.
Chegando em La Plata, tomamos outro ônibus que nos leva para perto do estádio, onde várias pessoas aproveitam o tempo livre para conversar, tomar algo e ouvir as músicas dos Stones que vários bares e estacionamentos ao redor tocam como trilha sonora para a espera do grande momento.
Com meu ingresso em mãos, caminho ao redor do estádio na companhia de Luci, uma amiga argentina que conheci na noite anterior, até o portão de acesso à platea Sur B, local onde deveria ver o show, e a partir daí acontece uma montanha russa de emoções que jamais poderia ter imaginado viver.
Enquanto acompanhava Luci até o seu setor, percebo que meu ingresso havia sido perdido (ou, mais possivelmente, furtado) de meu bolso traseiro, e uma enorme decepção, raiva de mim mesmo por ter descuidado do ingresso e tristeza por ter feito enormes sacrifícios para estar lá e por não poder estar no show me deixam muito para baixo. Luci, bastante entristecida, me pergunta: “e agora? O que fazemos?”. Paro por um minuto, penso e digo: “vamos sair daqui e pensar em algo.”
Depois de aproximadamente uma hora pensando no que fazer, tempo em que me vieram desde a ideia de tentar achar algum conhecido que pudesse me ajudar até a tentar entrar mostrando apenas meu passaporte e tentar conversar com algum dos seguranças para lhe dizer o que ocorrera, Luci me diz: “vem comigo, tenho uma ideia”. Luci tem uma deficiência parcial de audição, e por isso ela tinha um documento especial que lhe dá gratuidade no transporte e preferência no acesso a espetáculos, o que inclui um acompanhante, desde que os dois possuam ingressos, neste último caso.
Saímos de onde estávamos e vamos até um dos portões de entrada, onde ela conversa com um dos seguranças, expõe a situação em que nos encontrávamos, e obtemos a resposta: “OK, mas vocês precisam entrar pelo campo.” Ainda incrédulos – eu, especialmente, ainda sem acreditar que poderia realmente entrar -, vamos até o portão de entrada que dá acesso ao campo, falamos com um segurança que nos pede um minuto, tempo em que um de seus supervisores vem, conversa conosco e nos dá o sinal verde para entrarmos.
Após passarmos o portão de entrada e conseguirmos entrar no estádio, não acredito no que aconteceu, faltando pouco menos de 15 minutos para o início do show. Estava com tudo perdido e em questão de minutos se resolveu tudo da melhor forma, e assim pude assistir a um dos melhores shows em estádio que já vi, apesar de um que outro erro da banda, como já devidamente apontado pelo André em seu relato sobre o que ele viu em La Plata e que mais do que fala como foi esse show.
Aqui, apenas uma observação em relação a Keith: por mais que ele tenha errado em vários momentos do show, era visível sua alegria ao tocar nessa noite em La Plata, possivelmente uma reação à mais que calorosa recepção da plateia ao ver que Mick menciona seu nome para tocar as próximas duas músicas: Slipping Away e – para meu particular deleite, Before They Make Me Run, minha canção favorita de Keith e que os Stones não haviam tocado nos dois shows anteriores.
Terminado o show, sigo sem entender direito o que passou. Vi um grande show em que corri o risco de ficar de fora por um absoluto deslize de minha parte, felizmente corrigido. Se Keith teve seu “blind angel” no final dos anos 70 que o salvou da cadeia, eu tive a ajuda de um “deaf angel” que me garantiu o acesso a um dos melhores shows que vi na vida.

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