German era um rapaz de 16 anos do Brooklyn, NY, que conseguiu se enturmar com os Stones e sobreviver às baladas para contar tudo depois, embora com alguns traumas e pensamentos suicidas no final. O fanzine durou de 1978 a 1996. Era lido inicialmente por ninguém e, mais tarde, virou boletim oficial da banda, por um ano.
“Acho que sexo é uma parte normal da vida que sempre estará lá, mas não os Stones. Sexo pode esperar, os Stones não esperam ninguém”, disse à Folha o autor. “E, se você quiser qualquer coisa deles, seja ingressos, discos raros ou a chance de conhecê-los, então é melhor fazer disso sua prioridade.”
E foi isso que German fez. Largou a faculdade de jornalismo e a casa dos pais para morar num apartamento minúsculo de Manhattan, onde dividia a cama com um colega. O local servia de “escritório” do “Beggars”, onde ele lambia 3.000 selos e 3.000 cartas a cada uma das 102 edições do fanzine. “De acordo com meus pais, estava fugindo de casa para me juntar ao circo”, escreveu no livro.
German deu a sorte de pegar o “período nova-iorquino” de três Stones –Mick Jagger, Keith Richards e Ron Wood moravam na cidade e circulavam pelos bares. O garoto colou neles e aos poucos foi se aproximando, colecionado fontes que, entre outras coisas, descolavam os discos antes dos lançamentos. Fazia também um diário de baladas dos músicos, com a ajuda dos paparazzi.
“O Ronnie [Wood] costumava dizer: ‘O ‘Beggars Banquet’ é por onde a gente fica sabendo o que cada um dos Stones está fazendo'”, disse German, que, aos 23, ficou amigo do guitarrista e passou a frequentar sua casa. Os dois costumavam varar noites ouvindo música, passando trotes e, uma vez, German tocou pandeiro com Jagger e Wood no estúdio da casa.

Máquina de dinheiro

Além das narrativas de fã, o livro dá conta de um momento delicado e pouco narrado na vida dos Stones, como a transformação da banda em uma máquina de fazer dinheiro, o fim temporário do grupo nos anos 80 e o agravamento da relação Jagger-Richards –o guitarrista não suportava a maneira como Jagger colocava sua carreira solo acima dos Stones.
Embora German não tenha se aproximado tanto de Jagger como de Wood e Richards, que chegou até a conhecer seus pais, o vocalista deu um dos maiores presentes aos leitores do fanzine, repassando 40 ingressos para seu show solo em Nova York, em 1993.
A histeria e o assédio dos fãs para conseguir as entradas levaram German à paranoia. Ele percebeu, afinal, que o fanzine consumia sua vida, sem tempo para namoradas, médicos ou para tirar a carteira de motorista. Vieram então a depressão e a ideia de suicídio. Três anos depois, o fanzine acabou.
“Escrever o livro foi como fazer terapia. Algumas partes foram bem difíceis de digerir. Mas eu sabia que tinha que tirar isso do meu sistema”, disse.
German perdeu o contato com os músicos, mas disse que a sobrinha de Richards gostou muito. “Acho que isso foi a aprovação da família”, disse.
Cerca de 50 edições do fanzine podem ser compradas por US$ 59,90 (R$ 130) em www.beggarsbanquetonline.com. O livro está à venda no site da Amazon, por US$ 16,50 (cerca de R$ 35, mais taxas).

A visão de Stones Planet Brazil

Under Their Thumb é provavelmente o melhor livro já escrito sobre os Stones, embora, na verdade, não seja um livro sobre os Stones, mas sobre a vida de Bill German, que durante anos foi totalmente dedicada aos Stones. O que Bill conta é a verdade sobre a banda, ou ao menos a visão dele sobre a verdade. Poucas pessoas tiveram tanto acesso a Keith, Ronnie, Mick e Bill, nesta ordem, quanto Bill German – o próprio jornalista diz que Charlie talvez nem saiba quem ele é.
Desmistificando e derrubando lendas sobre a banda, sem deixar de reconhecer a vida exótica dos integrantes dos Stones e de quem os cerca, Bill mostra que o perigo que ronda os Rolling Stones está muito mais na imensa empresa, ou grupo de empresas, que a banda se tornou. Muito mais do que as aventuras folclóricas de Ronnie e Keith (nem todas são tão folclóricas) o perigo em se reunir aos Stones está em quem os rodeia, os empresário, advogados e aproveitadores que estão metidos no negócio Rolling Stones. “Cetifique-se de que você será pago”, foi o conselho que Mick deu a Bill German, antes de o fã ter seu fanzine Beggars Banquet oficializado como revista enviada aos assinantes do fan club oficial da banda em 1984. Bill logo soube a razão que fez Mick dar-lhe tal conselho. Sobreviver ao negócio Stones foi muito mais difícil do que encarar o estilo de vida de Keith Richards.
Under Their Thumb vale cada minuto empregado em sua leitura, mesmo que seja preciso esforço para compreender o inglês do nova-iorquino Bill German. Se você quer conhecer um pouco da história mais verdadeira já escrita sobre os Stones, corra e encomende seu livro.

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