Marcelo Gross traz os Rolling Stones nas veias. Com ele não tem essa coisa de esconder as referências musicais para não ser acusado de imitação. O cara mete guitarras em Open G nos discos dele e quer mais é que soe Stones mesmo, sem nunca deixar de lado as demais influências que carrega, como Beatles, The Who, etc. Guitarrista da Cachorro Grande, banda que abriu o show dos Stones em Porto Alegre no histórico dia 2 de março de 2016, Gross lançou no fim do ano passado o seu segundo álbum solo, Chumbo e Pluma, lançamento em CD e LP do Selo 180. Stones Planet Brazil teve a oportunidade de conversar com o músico gaúcho por 27 minutos nesta quarta-feira (20/02). O resultado do papo você encontra editado nas linhas abaixo. Você pode ouvir toda a entrevista, sem cortes, no final do artigo. Divirta-se.

A primeira coisa a se dizer sobre Marcelo Gross é que ele é um baita cara, muito simples, humilde e bastante atencioso. Sem o menor estrelismo, ele fala sobre Chumbo e Pluma, disco que gosta de comparar conceitualmente ao Álbum Branco, dos Beatles, assim como diz que seu disco anterior, Use o Assento para Flutuar, tem ares de Exile on Main Street.

Gross não tem medo de mostrar a influência dos ídolos em seu trabalho

Dois discos em um

Chumbo e Pluma, na verdade, são dois discos num mesmo álbum duplo. Chumbo é roqueiro e Pluma é romântico. “O disco acabou virando um monstrinho, uma coisa dupla. Eu comecei a gravar o que seria o Chumbo em final de 2015. Eu tinha vários rocks e a gente foi no embalo do primeiro disco. No verão de 2016 fiz intervalo para gravar o novo disco da Cachorro Grande, o Electomod. Eu retomei o Chumbo pelo meio de 2016. Neste período encontrei um amigo, o Rodrigo Deltoro, que é produtor e trabalha na DaFne Music, especializada em folk, que também é do Lucas Mayer, outro amigo. Uma das canções que eu tinha era Bebel e fui lá para gravar o piano no estúdio deles. Os caras me convidaram para registrar algumas canções folk. E eu tinha músicas feitas no estilo, com pegada mais de violão e piano. Eles sugeriram que eu finalizasse o Chumbo com eles e fizesse o Pluma. Gravamos as bases no estúdio Submarino, que é do Clayton Martin, e finalizamos no estúdio do Rodrigo e do Lucas, o Dahouse “,  conta Gross.

Tattoo You e Exile on Main Street

Quem ouve Chumbo e Pluma lembra imediatamente do Tattoo You, que tem um lado mais rock e blues pegado e outro de baladas. Gross reconhece a influência do disco lançado pelos Stones em 1981 e revela que também se inspirou no Álbum Branco. “Tem relação com o Tattoo You, que possui o melhor lado B do mundo para transar, mas também do Álbum Branco, com aquela coisa dos Beatles tocando folk music na Índia. Foi oportunidade de fazer dois discos em um. Eu estava louco para soltar esse lado folk”, conta o guitarrista.

Chumbo e Pluma é um dos melhores discos do rock brasileiro

Os Rolling Stones e Keith Richards estão no DNA de Gross, que usa e abusa dos ensinamentos dos mestres em seu trabalho, seja solo ou com a Cachorro Grande. “Stones e Keith são grandes influências, que eu escuto desde criança, desde os 8 ou 9 anos. A primeira banda da minha vida foram dos Beatles, os Stones foram a segunda e até hoje os Stones têm uma dimensão muito forte para mim, muito grande”, afirma o artista. “Isso se nota desde o lance de iniciar a Cachorro Grande com aquele clima Jagger e Richards que eu tenho com o Beto Bruno (vocalista da banda) e que a gente adora. Na minha carreira solo, em Use o Assento para Flutuar (primeiro disco de Gross), eu costumo fazer comparação com o Exile on Main Street. Tem várias canções influenciadas pelos Stones e pelo Keith Richards solo, que são alimento para eu fazer os meus discos. Eu amo o Main Offender e o Talk is Cheap. Acabei usando afinação aberta em sol no meu primeiro disco. Tem uma canção chamada o Buraco da Fresta, que tem Open G com capo na quarta casa, com a manha de fazer a guitarra roncar como o Keith Richards gosta. No disco novo tem uma música que se chama Me Recuperar que é muito nessa pegada do Keith solo”, completa Gross, que fala com conhecimento de causa – o cara usa afinação aberta e capo à Keith Richards como o Stone faz em clássicos como Happy, Tumbling Dice e Jumping Jack Flash.

Fã de Keith, Ronnie e Mick Taylor

Assim como os Stones enaltecem seus antigos ídolos (Muddy Waters, Chuck Berry, Little Walter, etc), Gross faz questão de demonstrar a paixão pela música dos artistas que o levaram tocar. “A canção que abre o meu primeiro disco, Trilhos, tem uma pegada Stones muito forte. Mostra a minha pilha de fazer alguma no estilo do Exile, que ficou bem evidente.  A influência do Keith é clara. Eu sou muito influenciado pelo Mick Taylor também. Aquela coisa da Les Paul. Eu cresci ouvindo os discos que ele gravava, mesmo antes dos Stones, como o Crusade com o John Mayall. Sou muito fã do Mick Taylor para solo e do Keith Richards para base e Open G. E gosto muito dos discos solo do Ronnie Wood, particularmente o I´ve Got My Own Album To Do e o Now Look, que são discos de cabeceira. Sou muito influenciado pelo Ronnie como compositor”.

Gross compara o primeiro disco solo dele ao Exile On Main St.

Recompensa por dedicação ao rock and roll

Marcelo Gross não é apenas fã e influenciado pelos Stones. O cara teve a chance de abrir o show deles em Porto Alegre e ainda pode encontrar a banda no backstage. É impossível não falar a respeito dessa passagem, que deixou Gross pirado. “Encontrar os Stones foi um sonho da vida. Não foi apenas o Jagger ou o Richards, os quatro apareceram. Ficamos cara a cara com eles. Foi inacreditável e até agora a gente ainda está meio abalado. Eu ouvia um ditado que dizia que uma banda de rock and roll só era uma banda de rock and roll depois de ter aberto show dos Rolling Stones. Então a gente passou no teste”, narra Gross.

Para o músico gaúcho, a ficha ainda não caiu totalmente. “Foi tudo um sonho. Só se falava em Stones e a gente estava na nossa cidade natal e a galera cantou junto e entendeu que a gente estava representando o Estado no maior show que Porto Alegre já recebeu. Parece que isso foi um prêmio por toda dedicação ao rock and roll, pelo amor aos Stones, que a gente tem desde criança. Eu acompanho os caras desde o Tattoo You, desde 1981, e a gente está conferindo tudo que eles fazem, cada vídeo, cada clip, cada dvd, cada vhs, cada álbum novo, cada turnê”, declara Gross, apaixonadamente.

Beijo nas artroses de Keith Richards

Mas as emoções foram ainda maiores. Estar diante dos quatro Stones foi algo sem explicação para um guri que cresceu ouvindo a maior banda do mundo. “De repente a gente estava ali com os caras. Entre o nosso show e o deles,  nos levaram para uma salinha. Primeiro apareceu o Charlie Watts, com aquela elegância, com as mãos para trás, meio tímido, atrás dele o Ronnie Wood, todo serelepe com copinho de whisky numa mão, cigarrinho na outra, dando risada. Depois veio o Mick Jagger que parecia ter saído de uma aula de aeróbica e mais atrás, bem largadão, veio o Keith Richards com aquele jeitão dele. Eu disse para ele: ‘você é especial Keith’ e ele respondeu: ‘não, você é especial’. Eu beijei as artroses do Keith e ficamos ali um breve momento. Nos abraçamos, trocamos olhares. Bateu um reconhecimento. Eu e meus meninos, que com quem tenho a banda há 20 anos, com os Rolling Stones. Foi momento que vai ficar congelado no tempo”.

Em vinil é mais bonito

O encontro fez Gross pensar que tudo valeu a pena. Todas as dificuldades foram recompensadas para viver momento único com os Stones no Estádio Beira-Rio. Mas a vida de Gross continuou. Chumbo e Pluma foi lançado em LP, além de sair formatos digitais.

“Eu sou apaixonado por música. Eu curto todos os formatos de música. Eu viajo e tenho meu Spotify, meu Deezer, eu ouço rádio, gosto em Porto Alegre da Unisinos FM, da Rádio Cultura FM, mas sou fissurado pelo formato analógico. Sou louco por disco de vinil. Eu escuto CD no carro, tenho minhas fitas K7. Até ganhei um walkman da minha namorada outro dia. Só que o vinil é o que mais dá prazer. Eu amo os graves e agudos, gosto de ouvir um bom vinil de 180 gramas. Acho sensacional ter lançado meus dois álbuns e os da Cachorro com edições tão caprichadas como são as do Selo 180. É tudo feito com muito carinho. São edições sem comparação. O Chumbo e Pluma ficou muito bonito, com o Pluma em vinil preto e o Chumbo em vinil transparente. As artes são muito legais, capa grande, dois encartes, com todas as letras e fichas técnicas. Quando eu comprava vinil no centro de Porto Alegre ía lendo no ônibus tudo que tinha até o rótulo. Acho que essa gurizada que cresceu na fase do MP3 tem essa curiosidade de ter contato com a mídia física, que existe mesmo, que tem cheiro, que tu podes tocar nela. Tenho muito carinho por esses discos que saíram pelo 180”.

Disco ao vivo da Cachorro Grande

Os discos de Gross estão entre os melhores lançamentos do rock brasileiro em muitos anos, apesar de toda dificuldade de produzir rock no País. Mesmo assim, o cara está cheio de projetos e mostra ter bastante fôlego. “Nada contra outros gêneros musicais, mas está cada vez mais fechado e difícil de fazer rock no Brasil. Até em termos mundiais estamos carentes de heróis para levar a turma junto. Mas sigo divulgando o Chumbo e Pluma. Devemos fazer um clip de alguma das músicas, e vou cair na estrada tocando. Já fizemos alguns shows, em que a gente dividiu, metade Chumbo e metade Pluma, parte elétrico e parte acústico. Eu toco com o Clayton Martin na bateria, o Fernando Papassoni no baixo e o Pedro Pelotas nos teclados. A intenção é divulgar o disco para mais gente ter acesso ao nosso trabalho”.

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E a Cachorro Grande? A banda não para também. Gross indica que haverá movimentação da banda. “No ano passado gravamos um disco ao vivo em São Paulo com os nossos maiores sucessos, numa pegada bem The Who ao vivo, bem pesadona, trazendo de volta o rock and roll que ficou marcado como característica da Cachorro Grande. Nos aventuramos pela música eletrônica nos últimos dois discos e resolvemos dar uma pausa nisso e dar para a galera aquilo que ela quer. Ou seja, os sucessos da banda numa roupagem bem pesada, cheia de improvisos e estamos bem felizes com esse lançamento. Vai sair também em vinil duplo pelo Selo 180. Tem uma música que teve participação do Samuel Rosa, do Skank, que se chama Sinceramente, que será lançada em single na virada do mês. Vai sair também outro single com Você Não Sabe O Que Perdeu, e por março ou abril, estará na rua o primeiro disco ao vivo da Cachorro Grande. Vmos ser felizes tocando rock and roll”.

Entrevista Completa

Ouça a entrevista completa e sem cortes no player abaixo.


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