Artigo publicado na revista Algarve 123, de Portugal
 
Por Bruno Filipe Pires
Rolando Rebelo passou os últimos três anos a trabalhar num livro dedicado aos Rolling Stones. A obra segue o exemplo de outras já editadas nalguns países, ao procurar relacionar a influência da mítica banda na música e na sociedade portuguesa – pela voz de diversas personalidades e de alguns protagonistas da cena rock nacional. «Rolling Stones em Portugal – uma viagem alucinante pelos bastidores da maior banda do mundo» revisita ainda os cinco concertos em Portugal, através de uma completa revista do que foi publicado na imprensa lusa. E mais: é a primeira vez que uma obra não-oficial reúne participações de todos os membros dos Stones.

O amor pelos Rolling Stones começou no início da
adolescência. Para além da influência musical que recebeu dos tios mais
velhos, Rolando Rebelo, 45 anos, funcionário da Biblioteca Municipal de
Portimão, recorda o dia em que viu na televisão um clip do tema
«Emotional Rescue».
“Aquilo mexeu comigo. Não sei explicar, mas percebi logo que havia ali qualquer coisa. E foi até hoje”, brinca.
A
ideia para o livro é mais recente. Inspira-se no trabalho editorial do
alemão Olaf Boehme – talvez o maior coleccionador de artigos e
reportagens publicados na imprensa de todo o mundo sobre os Rolling
Stones.
“Penso que ele tem cerca de 14 000 artigos de jornais”,
colecção que já o colocou no Livro Guinness dos Recordes. Boehme e o
colega Gerd Coordes compilam este material jornalístico para editarem
diversos livros.
“Eu também comecei a guardar os artigos da
imprensa portuguesa desde há muitos anos para cá. Pensei em fazer uma
compilação do género, já que os livros do Olaf Boehme, para além de
serem caros, estão todos esgotados”, diz Rolando Rebelo.
“Acontece
que em 15 anos mudei à volta de 9 vezes de casa e muita coisa se perdeu
pelo caminho”, lamenta. “Mesmo assim, compilei cerca de 400 recortes de
artigos, mais cerca de 100 primeiras páginas e capas de revistas
nacionais” relativas aos Stones. Ao longo dos anos, Rolando juntou ainda
cerca de 60 vinis (LPs), 100 livros, 400 CDs e 500 DVDs (gravações
oficiais e piratas), T-shirts, posters e outros itens. Destaca o vinil
“Europe 1973” do qual só se fizeram 500 cópias exclusivamente para as
estações de rádio…
No entanto, Rolando quis fugir ao modelo
editorial de Boehme. “Pensei que faltava qualquer coisa orgânica sobre o
que realmente é a banda”. Tinha em mente algo parecido ao trabalho de
um jornalista espanhol que escreveu um livro sobre os Rolling Stones em
Espanha, onde tocaram pela primeira vez em 1976.
“Na altura, ainda
o Franco estava no poder e o concerto dos Stones foi quase um acto de
contracultura”, diz, só para dar um exemplo como a história desta mítica
banda se cruza com a das próprias nações por onde passam. Em Portugal,
os Stones só tocariam muito mais tarde em 1990…
Uma das
dificuldades desta aventura foi “ganhar credibilidade” no meio musical,
durante a fase de pesquisa e dos contactos com os vários intervenientes
no livro.
“Uma das coisas que me perguntavam é se eu estava a
fazer alguma coisa que iria denegrir a imagem dos Stones. Respondi
sempre que não, é uma obra de um fã. Repare o historial deles está
repleto de escândalos, mas eu preferi dar destaque à música.”
“A nível de rácio, por cada 3 pedidos, um é que era aceite”. Ainda assim, acabou por reunir participações de 14 países.
Segundo
o autor, este projecto só foi possível graças aos vários fotógrafos que
gentilmente cederam material de arquivo, com várias jóias – algumas já
publicadas anteriormente, outras inéditas.
“A ideia era fazer uma
linha cronológica visual para descrever a carreira da banda”, diz.
Rolando destaca uma imagem da primeira sessão de fotografia de sempre
dos Stones, cedida por Philip Townsend (“Mr. Sixties”).
Também John Pasche cedeu os direitos da famosa língua (“Tongue and Lip Design”) que criou para os Stones em 1971.
“Na
altura ele era um jovem designer e pediram-lhe para fazer um logótipo.
Pasche inspirou-se numa deusa indiana”, revela. Um mito popular e
incorrecto é que teria sido Andy Warhol. Há também uma foto de Mick
Jagger a jantar num restaurante de Cascais, foto cedida pelo dono da
casa.
Rolando faz parte de uma espécie de grupo de fãs acérrimos
espalhados pelo mundo, que enviam uns para os outros jornais e revistas
dos seus países, quando sai algum artigo sobre os Stones.
“Ainda
agora enviei quatro exemplares da Blitz para França, Alemanha,
Inglaterra e Brasil”, já que a revista portuguesa dedica a capa de Junho
aos 50 anos da mítica banda de Mick Jagger.
Fazem parte deste
clube de trocas, o britânico Matt Lee, um dos maiores coleccionadores de
memorabilia dos Stones do mundo inteiro, e o jornalista brasileiro
André Ribeiro, dinamizador do maior blog em língua portuguesa dedicado
aos Stones (http://stonesplanetbrazil.blogspot.com/).
“O
Lee deve ter mais de 2/3 milhões de libras investidas em material quer
dos Stones, quer dos Faces, a antiga banda do Ron Wood. Aliás, foi
através do Lee que o guitarrista participa no meu livro”, conta Rolando.
A
obra está dividida em três partes: a primeira é uma biografia dos
Stones. “Não é apenas um relato factual e cronológico, mas sim uma
história recheada de ironia. Sempre que possível vou buscar pequenos
detalhes, curiosidades, anedotas, e episódios que fazem a diferença em
relação às demais biografias que já existem”, revela.
Pelo meio, o
autor convidou cerca de 70 músicos e outras personalidades para darem
vários testemunhos e contributos à história. Por exemplo, Bill Carter, o
advogado norte-americano que livrou Keith Richards da cadeia, em 1977,
quando o guitarrista foi detido por posse de drogas no Canadá.
Rolando falou até com Pamela Des Barre, a famosa gruppie.
“Foi muito simpática comigo, deixou-me reproduzir o que eu quisesse do
livro de memórias dela, mas não quis escrever nada de inédito. Diz que
já passou essa fase da vida… não quis mexer no sótão.”
Dos
convidados portugueses, o autor quis entender qual a importância dos
Stones na música nacional, e se de alguma forma, “influenciaram a nossa
sociedade”?
A segunda parte do livro é toda dedicada às passagens
dos Stones por Portugal. “Tem toda a imprensa que há antes, durante e
depois dos concertos”. A terceira é dedicada à bibliografia, anexos e
extratextos. E como chegou aos Stones? “Houve uma pessoa que confiou em
mim e deu-me um contacto da advogada do Mick Jagger em Londres.
Por coincidência, foi numa altura em que fui lá a um concerto de
homenagem aos 25 anos da morte do pianista Ian Stewart. Antes do evento,
fui entregar o meu projecto à advogada que ficou curiosa com a visita
de um português”, conta.
“Ao contrário do que pensei, fui bem
recebido” no escritório da advogada Joyce Smith. “Ela mandou-me entrar e
avisou-me que o Mick Jagger recebe cerca de 400 pedidos semanais para
documentários, filmes, entrevistas…”
“Ela avisou-me que o meu
projecto era mais um para o monte. Regresso a Portugal e passadas duas
semanas, telefonei-lhe. Qual foi o meu espanto quando ela me disse que o
Jagger tinha levado dois projectos para casa, entre os quais, o meu!
Este contacto foi em Maio. Em Novembro recebi um e-mail do Jagger para o
livro, a dizer que gostava muito de Portugal e do Porto”, revela.
E
mais. No concerto dedicado a Ian Stewart estava também presente Bill
Wyman, ex-baixista que já antes tinha recusado participar no projecto de
Rolando, Mick Taylor, Ron Wood e Charlie Watts, a quem Rolando fez
questão de se apresentar.
À saída, Rolando tentou a sorte e foi
abordar o baterista dos Stones. “Quando volto a Portugal escrevo-lhe a
falar do meu projecto. O Charlie Watts recordou-se de mim e enviou-me
uma foto autografada a desejar boa sorte para o livro!”
“Houve um
fotógrafo que me deu o contacto do assistente do Keith Richards em Nova
Iorque. Ficaram entusiasmados com o meu projecto, porque ele gosta
muito de fado, da Ana Moura, e de Portugal.
O problema é que
tinha acabado de fazer uma viagem de promoção à autobiografia pela
Europa que foi bastante emocional. Mas o que é certo é que um dia recebo
aqui em casa um fax escrito à mão pelo próprio Keith, dirigido aos
portugueses!”
Mais prático foi Ron Wood “que endereçou um SMS para o coleccionador Matt Lee e depois para mim”.
Como
é que um fã como Rolando Rebelo vê a banda hoje? “Repare, não se pode
comparar o Stones a nada. Nunca ninguém foi tão longe quanto eles na
indústria da música. Tudo aquilo que eles façam a partir de agora,
sempre servirá de padrão para as próximas gerações de bandas rock”,
responde.
De facto, ao longo dos últimos meses, as bodas de ouro
da banda têm sido motivo de muita especulação: há boatos de um novo
álbum, de uma digressão de celebração dos 50 anos já em 2013, e também
do regresso de Bill Wyman ao núcleo do grupo. Embora muito esteja por
confirmar, a verdade é que os Stones não dão mostras de se quererem
reformar.
O livro tem como padrinhos Zé Pedro dos Xutos e Nilton.
Está a ser paginado no concelho por um designer local, Filipe Simões do
Planeta C. Será publicado em breve com chancela da Zebra Publicações e terá direito a festas de lançamento em Portimão, Lisboa e Porto. A tiragem é limitada a 2000 exemplares.

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