Em 10 de junho de 1964, cinco ingleses brancos foram aos estúdios das Chess Records, como crianças a um parque de diversões. Foram prontamente recebidos por um senhor negro e sorridente. Com dedos calejados e extrema humildade, o senhor estava pintando as paredes, segundo as lendas. Mesmo assim, ele desceu as escadarias que dão acesso ao estúdio principal para ajudar os visitantes a carregarem seus instrumentos.

Espantados, os jovens britânicos descobriram que aquele senhor era nada mais e nada menos que Muddy Waters.

Passado o susto, os Rolling Stones começaram a montar tudo para as gravações. As várias feras do blues de Chicago presentes olhavam para eles com desdém. Músicos ingleses brancos tocando blues? Não podia dar certo.

No que soaram os primeiros acordes, todos ficaram boquiabertos. Todos aqueles senhores que fizeram os Stones se juntarem numa banda, não acreditavam no que viam. Os branquelos eram incríveis.

A história se repete

Em 20 de junho de 2019, ou seja, 55 anos e dez dias depois a cena se repetiu. A House of Blues, na mesma Chicago, recebia banda de blues formada por ótimos músicos locais. Convidado por um produtor musical que o conhecia, Andrés Ciro Martinez subiu ao palco para tocar Little Red Rooster. Cantou e tocou muito bem e foi aplaudido. No entanto, haveria mais.

Encerrado o show, a pedidos das duas dezenas de fãs argentinos presentes, Ciro e Pilo (guitarrista de Buenos Aires) foram novamente ao palco. Os locais os olharam com certa prevenção. Os músicos de Chicago queriam ir para casa e não prolongar a noite.

Então, Pilo começa os acordes de uma versão argentina de Route 66 cantada em Espanhol por Ciro. A Blues House veio abaixo. Como era possível? Músicos brancos argentinos causando aquele furor no berço do blues, diante dos locais?

A história se repetiu mais uma vez. E ao menos por uma noite, Pilo e Ciro foram em Chicago como Keith Richards e Mick Jagger. E hoje temos os Stones no Soldier Field. E lá estaremos todos nós para aplaudi-los.

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