O Stones Planet Fanzine esteve no Rio de Janeiro para acompanhar a festa de lançamento do Livro Sexo, Drogas e Rolling Stones, de Nélio Rodrigues e José Emílio Rondeau. Lá, o fanzine conversou com o brasileiro Arnaldo Brandão (foto ao lado), ex-baixista do grupo A Bolha, que viveu quase dois anos com Mick Taylor no começo dos anos 1970. Arnaldo contou-nos pormenores das lamentações de Taylor em relação aos Stones, que em 1974 o fizeram deixar a banda. Na entrevista abaixo, Arnaldo Brandão revela um pouco da intimidade de Taylor e dos Rolling Stones.

STONES PLANET FANZINE – Como você conheceu o Mick Taylor?
Arnaldo Brandão – Nossa amizade começou por acaso. Eu tinha 20 anos, tinha ganho uma grana boa com a minha antiga banda (A Bolha). Era 1972, um ano difícil de viver no Brasil, havia a ditadura do Regime Militar. Eu queria respirar novos ares e fui morar em Londres. Um amigo nos deu o contato do Ruphus Collins, ator do Living Theatre. Quando eu e minha ex-esposa (Cláudia) chegamos a Londres, ligamos para o Ruphus. Ficamos amigos dele. Através do Ruphus conheci o Mick Taylor e os demais Stones e também Anitta Pallemberg e Bianca Jagger. Fiquei muito amigo do Mick Taylor e moramos com ele quase dois anos anos.
SPF – Conte um pouco sobre como você acabou morando com o Mick Taylor.
AB – O Mick Taylor estava comprando uma casa em St. John’s Jerusalem, a 45 minutos de trem do centro de Londres. O Mick nos convidou para morarmos juntos na mansão dele. Foi um período de muita diversão e muito rock and roll.
SPF – O Mick Taylor era realmente tímido demais?
AB – Era muito introvertido. Desde que eu conheci o Mick Taylor ele reclamava dos Stones. Dizia que queria sair da banda, que o grupo não dava atenção às composições dele. Dizia que fazia arranjos e não era recompensado. Como o Mick era mais novo do que os demais Stones, ele era mais próximo de mim, porque tínhamos a mesma idade. Ele era muito tímido e não sei por quê, mas sempre mostrou desejo de sair da banda. Eu dizia para ele não deixar os Stones de forma alguma. Ele respondia que queria gravar um disco solo. Falava para ele gravar o álbum sem sair da banda, porque ele tinha tempo de sobra para fazê-lo nos intervalos dos Stones. Até gravamos juntos muitas canções. Ele tinha várias músicas e ficávamos tocando no estúdio de casa.
SPF – O que mais o Mick Taylor dizia sobre os Stones?
AB – O Mick reclamava que a banda não ensaiava direito, que o Keith aumentava o volume da guitarra dele nos concertos e que ele não conseguia ouvir a sua própria guitarra. Eram reclamações meio infantis na minha opinião. Logo depois ele realmente deixou a banda. Foi uma decisão dele. Acho que não havia necessidade de o Mick ter deixado os Stones. Ele poderia ter um trabalho solo e continuar na banda.
SPF – Foi uma decisão errada, portanto?
AB – Acho que sim. Na verdade, o Mick Taylor se incomodava com o sucesso.
SPF – Você manteve contato com o Mick Taylor depois desse período em que moraram juntos?
AB – Estive com o Mick Taylor novamente quando ele veio ao Brasil para fazer shows em São Paulo, em outubro de 1990.
SPF – Você acompanhou a carreira do Mick depois dos Stones?
AB – O Mick é muito tímido e isso torna difícil para ele se mostrar. Provavelmente ele se arrependeu de ter deixado os Stones. Nunca conversamos muito sobre isso, mas ele não aguentava o assédio da imprensa, nem suportava o sucesso. Ao mesmo tempo, ele não soube administrar emocionalmente todo o sucesso que ele fazia com os Stones. Ganhava muito dinheiro, havia muitas drogas em cena, o que desequilibra a pessoa emocionalmente. Muito dinheiro e droga demais atrapalham a cabeça das pessoas. Mas não se pode botar a culpa nas drogas. O fato de ele ser muito tímido e estar numa banda de sucesso estrondoso o assustou. Além disso, embora ele seja uma pessoa muito simples, tem um ego enorme. Por isso, quis formar uma banda com o Jack Bruce. Todo mundo sabia que o Jack Bruce era doido demais e que as bandas dele não duravam muito. Acho que o Mick Taylor quebrou a cara.
SPF – O Ronnie Wood sempre disse que uma das razões que o fizeram aceitar o convite para tocar nos Stones era que ele conseguia acompanhar o ritmo de vida da banda. Você acredita que o Mick Taylor não conseguia acompanhar o ritmo dos Stones?
AB – (risos) É isso. O Mick Jagger e o Keith Richards sempre foram muito amigos do Ronnie. Acompanhei várias gravações do primeiro album solo dele (I´ve Got My Own Album to Do), o Keith estava usando muitas drogas. O Ronnie acompanhava o ritmo do Keith, embora pegasse um pouco mais leve. Todo mundo achava que o Keith morreria logo. Esse cara teve muita sorte, porque nunca vi ninguém abusar tanto das drogas e continuar vivo.
SPF – Que impressão os Stones causaram em você?
AB – Eu tive muito contato pessoal com o Mick Taylor. Falei pouco com Mick Jagger e Keith Richards. Tive até mais contato com a Anita e com a Bianca do que com eles. O Jagger é uma pessoa muito bem humorada, alegre, engraçada e otimista. O Keith era mais introvertido. O negócio dele era tocar, não gostava de ficar de papo furado. Além disso, sempre que encontrei o Keith ele estava muito doidão. (risos).
SPF – O nome do livro de Nélio Rodrigues e José Emílio Rondeau (Sex, Drugs and Rolling Stones) é perfeito?
AB – Exatamente, com certeza. Foi época de exageros. Todos tínhamos 20 anos.
***Matéria originariamente publicada na edição 26 do Stones Planet Fanzine. O texto acima é uma versão para o português.

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