Depois de ter ouvido todos os discos do box The Rolling Stones in Mono, lançado pela ABKCO, posso fazer mais algumas observações sobre este que considero um dos melhores, senão o melhor, relançamento dos Stones nos últimos anos.

Ouvi a maioria dos vinis, mas também em MP3 baixado do site oficial usando um voucher que vem incluído no box e também a versão em DSD, que teoricamente seria a versão digital pura dos discos. Vale ressaltar que os arquivos em DSD ocupam praticamente 23GB!!! de espaço.

Para explicar porque esse relançamento vale tanto a pena, é preciso entender como se deu todo o processo de remasterização desses discos em mono.

E se você não pode ter a caixa em vinil, vale a pena investir na caixa de CDs ou pelo menos os arquivos digitais, mas esses últimos só mostram todo seu potencial quando ouvidos através de um DAC (Digital Audio Converter), que consegue mostrar toda a qualidade do som, podendo reproduzir arquivos 24bit/96kHz e 24bit/192kHz, ou seja, áudio de alta resolução. Para reproduzir os DSD sem perda, o ideal é ter algum software capaz de reproduzir tais arquivos.

 

A Digitalização:

O processo de digitalização das fitas Master foi comandado pela engenheira-chefe de áudio da ABKCO Teri Landi,  ganhadora do Grammy pelo álbum Charlie is my Darling. A remasterização foi comandada por Bob Ludwig e a finalização (corte da matriz dos discos) realizada nos estúdios Abbey Road. Ou seja, feito por quem realmente entende.

Diferente do que foi feitos em outros lançamentos remasterizados dos Stones, Teri Landi e sua equipe foram atrás das fitas Master originais, o que garante a mais perfeita fidelidade possível das gravações. Mas estamos falando de fitas de 50 anos de idade. E aí entra toda a engenhosidade e trabalho duro de Teri Landi.

A sala de digitalização na ABKCO

 

O processo de digitalização da fitas Master

Antes de explicar como foi feita a digitalização das fitas Master, é preciso deixar claro que os Stones, ao contrário dos Beatles, gravaram em diferentes estúdios:

Regent Studios em Londres

Chess Studios em Chicago

RCA Studios em Hollywood

E o que isso importa? Tudo.

Diferentes estúdios implicam em diferentes mesas de gravação, diferentes equalizações, diferentes tipos de fita usados, diferentes engenheiros de som.

Então imagine o cara que ia mixar um novo disco dos Stones com as fitas Master de três origens distintas. O cara tinha um trabalho enorme para deixar as músicas mais ou menos parecidas em termos de som, eco, equalização e tudo mais. E isso dava origem a uma nova fita master que seria usada para confeccionar as matrizes dos discos. Portanto muito provavelmente determinada música não era igual ao original pois teve que ser editada. Tem alguns casos onde a origem do single era diferente da mesma música incluída no LP.

Como foi feito:

Tendo isso em mente, já dá para imaginar o trabalho que a Teri Landi teve. Ela optou por tentar achar todas as fitas Master de 1ª geração, ou seja, aquelas que contém as gravações originais mesmo dos Stones. E pode se dizer que praticamente todas as gravações desse box são originais das fitas de 1ª geração. O problema é que nem todas as gravações estavam juntas. E aí o trabalho foi uma odisseia por assim dizer. Nem sempre determinada gravação estava onde deveria estar ou algumas vezes estava deteriorada que teve que ser usada uma gravação de 2ª geração, mas mesmo assim muito semelhante à gravação original.

Mas uma vez identificadas as fitas Master, começou o processo de digitalização. Ela optou por converter para DCM 2,8kHz, um formato que, segundo Teri, gera arquivos mais fiéis que PCM 24bit/192kHz. Só para comparação, o box dos Beatles foi digitalizado em PCM 16bit/44kHz.

As fitas foram lidas em máquinas vintage com cabeças de leituras específicas para mono e estéreo. E as fitas foram lidas nesses dois formatos. Mas por quê?

Trabalho minucioso

Como as fitas Master têm praticamente 50 anos de idade, é natural e esperado que apresentem algumas imperfeições, o que, segundo Teri, e para nossa alegria, ocorreu  em poucas faixas, pois as fitas, de uma maneira geral, estavam muito bem conservadas.

Um fita mono, como é caso aqui, apresenta apenas uma trilha de informações que é lida com uma cabeça de uma trilha única. Uma fita estéreo apresenta duas trilhas de informação e um espaço no meio.

Se por acaso a fita apresenta algum defeito, seja oxidação ou esteja amassada, ela pode ser lida em uma cabeça estéreo que é capaz de ler duas trilhas, ou canais.

Sendo assim, se você passar uma fita mono em uma cabeça estéreo, você terá as informações de som dos lados da fita e não do meio. Porém a faixa inteira tem a mesma informação. Claro que pode haver perda de informação, mas nada muito significativo.

Então se você tem um setor defeituoso, pode ser que apenas uma parte esteja com problema. Passando então em uma cabeça estéreo, pode ser possível captar apenas a metade boa da fita e anular a parte ruim. Engenhoso, não é?

Claro que isso não resolveu todos os problemas, sendo que algumas vezes Teri teve que esticar a fita em setores amassados usando a própria mão. E em alguns casos, muito poucos pelo que se sabe, algumas correções tiveram que ser feitas via software.

Passado tudo isso, Teri tinha em mãos todas as faixas originárias de fitas de 1ª geração (algumas de segunda), em formato digital em DSD.

Só para termos idéia, os discos mono dos anos 80, reedições, foram cortados a partir de fitas estéreo. Resumindo, fuja deles se quer ouvir os Stones não sua plenitude dos anos 60.

Remasterização Digital:

As faixas foram mandadas para Bob Ludwig, da Gateway Mastering, que cuidou de eliminar imperfeições das faixas.

Mas aí você pode gritar indignado: Remasterização digital?????

Por que não passar direito para o vinil?

Isso foi necessário porque as fitas, com 50 anos de idade, desenvolvem imperfeições e ruídos que não estavam presente no momento da gravação.

Sendo assim essa remasterização digital serviu para eliminar aqueles defeitos da própria fita, e não mexer na música em si.

E podemos dizer que isso foi muito bem feito. As músicas soam cristalinas em toda sua plenitude.

Somente depois dessa remasterização as faixas foram mandadas para o Abbey Road Studios onde foram cortadas as matrizes.

 

E o resultado final?

Segundo Paul Rigby, do site The Audiophile Man esse boxset é o lançamento mais importante dos Stones em décadas.

Ou seja, se puder adquirir qualquer uma das versões disponíveis, seja vinil, CD ou arquivos digitais, sem dúvida nenhuma você vai se arrepender, pois todo o esforço e cuidado dispendidos na realização desse projeto, originaram uma obra de arte por assim dizer.

Uma oportunidade de ouvir os Stones como nunca foram ouvidos antes, pois mesmo nos anos 60, com os discos originais, os aparelhos de som não tinha capacidade de reproduzir todas as nuances sonoras das músicas.

Mas isso é assunto para outro artigo.

Obs: Esse artigo foi adaptado e simplificado do artigo original de Paul Rigby. Caso tenha curiosidade aqui está o linkThe Rolling Stones in Mono: The Ultimate Review


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